Manifesto Carto

Um viva ao randômico, ao abstrato, ao intuitivo; às boas coisas e sentimentos indescritíveis, que não têm pé nem cabeça

Um viva ao randômico, ao abstrato, ao intuitivo; às boas coisas e sentimentos indescritíveis, que não têm pé nem cabeça. Um viva ao lado direito do cérebro humano e, sobretudo, louvores Àquele que proporcionou, proporciona e proporcionará, tudo o que de bom e sublime existiu, existe e há de existir.

Ao Criador, que à sua semelhança nos fez, nos tornando, como Ele, criadores. Quão grande é esta dádiva, este divino dom, este poder! Sejamos eternamente gratos; honrar tão magnífica graça faz parte do real propósito de cada pessoa que vem a este mundo.

Um salve aos esquisitos, aos avessos, aos deslocados. Aqueles que, enquanto a maioria se distrai com o que está em voga, pensam em como fazer a diferença. A estes indivíduos que, quando a realidade parece congelada e o tempo passa bem devagar, se recusam a aceitar que “as coisas são assim mesmo”. Aos indignados, que quando tudo parece cinzento e opaco, continuam mantendo a esperança de que é possível fazer algo.

Aos inquietos, que quando tudo parece enfadonho e rígido, se conservam inspirados e entusiasmados diante do novo. Isto é para eles; pois é verdade o que foi dito: aqueles são desvairados o bastante para achar que podem mudar as coisas, são os que realmente as mudam. São os que surpreendem, inspiram, inovam; os que viram o jogo e conduzem a humanidade aos próximos estágios de seu desenvolvimento.

Nós, um espírito apaixonado, contra a excessiva e constante superficialidade, falta de gosto, primor e autenticidade, nos manifestamos em favor da criatividade. Da criatividade enquanto mentalidade, cultura e virtude a ser perseguida. Ela deve ser abertamente estimulada e enaltecida, pois além de ser parte daquilo que nos faz a fulgurante coroa da criação, é também a mãe do progresso. Estimulemos a coragem criativa e o denodo descobridor, pois com isto é possível criar novos mundos.

Somos pela imaginação e pela curiosidade. Estes são os atributos mais insignes nos gênios, e são imprescindíveis tanto para a descoberta e compreensão de tudo o que há, quanto para a idealização de tudo o que virá. Não à toa foi dito que a imaginação é mais importante que o conhecimento.

Somos pela intuição e pela sensibilidade. A intuição é a ferramenta com a qual se compreende o que não pode ser formulado, e com a qual se assimila o desconhecido. É a tocha e o facão nas mãos daquele que desbrava. Ela está na base da produção e absorção de conhecimento e beleza. A sensibilidade, no que lhe concerne, é a luz que revela a beleza escondida no detalhe; é o radar que percebe a minúcia; é a lente que amplia o encanto. Ela é fundamental para a percepção das coisas e valores que realmente importam.

Somos pelo sentir mais intenso e profundo. Almejamos mais romantismo, mais simbolismo. Queremos o arrebatador, o estonteante, o que proporciona a certeza de que é possível voar. Buscamos o frisson e a catarse. Desejamos a expressividade do violino, a magnificência do coral, a nobreza do trombone e a imponência da tuba e do tímpano.

Somos pela paixão. Ela é um poderoso combustível para qualquer realização. Quando estamos tomados por este sentimento, as amarras que nos limitam perdem sua força, independentemente de sua natureza. Este desconhecimento das fronteiras nos enche de bravura, e permite irmos mais longe para realizar o que se julgava impossível. Por isto não é raro que se diga que algo só atinge a excelência quando feito com paixão. Há verdade nisto.

Somos pela beleza. Pois ela alegra o coração e auxilia o aperfeiçoamento do espírito. A beleza serve também de garantido refúgio e bálsamo para os momentos de solidão, melancolia e luta, quando o mundo se mostra tão soez e áspero.

Somos pelo virtuoso detalhismo que surge pelo envolvimento sincero com o que se faz, pois o zelo é fundamental para que a grandeza humana se manifeste. Muitas vezes, é este compromisso que define a obra-prima, separando-a do medíocre. É impossível não se impressionar com a Modéstia de Antônio Corradini, ou com o Rapto de Perséfone, de Gian Bernini; ou ainda com a técnica empregada na famigerada Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, de Georges Seurat.

Somos pelo inconformismo perante a baixeza. Manter padrões elevados é fundamental para o crescimento em quaisquer áreas da vida, e também para a realização de obras valorosas, dignas de atenção. O que queremos é uma atmosfera que instigue o desejo por deixar uma marca na História; que promova o refinamento e a superação de si mesmo.

Se é verdade que somos felizes criando e em contato com o que é belo e elevado, que ficamos inebriados de desconcertante satisfação ao vermos tomar forma nossos mais variados esforços, conclui-se de atenta observação que a realidade que nos cerca é hostil para o alcance da felicidade — este supremo bem que por todos nós é perseguido.

É mister, portanto, que nos compadeçamos de Clio e enxuguemos suas lágrimas; que nos ergamos — homens e mulheres, de variadas idades, opiniões e aspirações — em panegírico à cultura, ao bom gosto, à inventividade, à beleza e ao critério. Este é o compromisso que assumimos. E para ele convidamos todos os que têm sede por algo genuinamente distinto.

Nós somos Carto. Pelo bem do progresso; pelo bem da criatividade; pelo bem da paixão.

Igor Felipe T. de Souza-Foto por Vidar Nordli-Mathisen

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